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sábado, 3 de setembro de 2011

Apaixonar-se

"Ele era, naquela ocasião, um rapaz excepcionalmente atraente, de grande inteligência, coragem e brilho, e Anne uma moça muitíssimo bonita, dotada de gentileza, modéstia, bom gosto e sensibilidade. A metade de tais atrativos, de ambos os lados, teria sido suficiente, pois ele nada tinha para fazer e ela menos ainda alguém para amar, mas o encontro de tão genrosas recomendações não poderiaser em vão. Aos poucos, os dois se aproximaram e, uma vez próximos, apaixonaram-se rápida e profundamente. Seria difícil dizer quem, de ambos, vira maior perfeição no outro, ou quem fora mais feliz: ela, ao receber suas declarações e propostas, ou ele, por vê-las aceitas."

Jane Austen, "Persuasão" - L&PM Pocket, tradução de Celina Portocarrero, 2011

terça-feira, 26 de abril de 2011

Do Jornalismo

"Eis um aspecto do trabalho de jornalista que não para de me fascinar e, ao mesmo tempo, de me inquietar. Os fatos não registrados não existem. Quantos massacres, quantos terremotos acontecem no mundo, quandos navios afundam, quantos vulcões entram em erupção e quanta, quanta gente é perseguida, torturada e morta! Se não há alguém para colher o testemunho e escrevê-lo, alguém para fazer uma foto que deixe traços em um livro, é como se aqueles fatos jamais tivessem acontecido! Sofrimentos sem consequência, sem história. Porque a história existe apenas se alguém a conta. É uma triste constatação. Mas é assim que funciona, e é talvez essa mesma idéia a me ligar à profissão - a idéia que com cada pequena descrição de algo visto pode-se deixar uma semente no terreno da memória."


Tiziano Terzani, "Um adivinho me disse", Editora Globo, 2005

sexta-feira, 9 de julho de 2010

A Verdadeira Natureza do Segredo

"Um segredo é sempre uma pedra dura, presa como uma cunha sob a pele. Como lembrança constante, o segredo provoca desejo de algo, adquire vida própria. Para guardar bem um segredo, várias coisas devem ser feitas ao contrario. Riso em vez de lágrimas. Um passo lento quando a vontade é correr. Negar sempre o que é mais importante, pelo menos na presença dos outros."
"Alguns segredos eram mais dificeis para guardar, especialmente os que não contamos nem para nós mesmos."
Alice Hoffman - A verdadeira Natureza - Editora Rocco, 2002

sexta-feira, 19 de março de 2010

Para M.T. & Oscar

..."Sabe do que é que estava sorrindo? Você preencheu que era escritor por profissão. Pareceu-me como o mais adorável dos eufemismos que já ouvi: Quando é que escrever foi sua profissão? Nunca foi outra coisa além de sua religião. Nunca. Agora estou excitado demais. Já que é sua religião, sabe o que é que lhe vai ser perguntado quando morrer? Mas deixe-me dizer antes o que não vão lhe perguntar. Não vão lhe perguntar se estava trabalhando numa maravilhosa e comovente obra quando morreu. Não vão lhe perguntar se era longa ou curta, alegre ou triste, publicavel ou não publicavel. Não vão lhe perguntar se estava em boa ou má forma enquanto trabalhava nela. Não vão nem lhe perguntar se era aquela a obra que estaria trabalhando se soubesse que o seu tempo estava se esgotando (...) Tenho certeza de que só lhe perguntarão duas coisas. Estavam todas as suas estrelas luzindo? Você estava ocupado escrevendo com todo o seu coração? Se apenas soubesse como seria fácil para você responder sim a ambas as questões. Se apenas se lembrasse sempre antes de se sentar para escrever que você era leitor muito antes de ser escritor. Simplesmente fixe isto na cabeça, daí sente muito calmo e pergunte a sim mesmo, como leitor, que texto entre todos os que existem no mundo Buddy Glass mais gostaria de ler se ouvisse o palpite do seu coração. O próximo passo é terrível, mas tão simples que mal posso acreditar enquanto o escrevo. Você simplesmente se senta e escreve-o você mesmo. Não vou nem sequer sublinhar isso. É importante demais para ser sublinhado. Oh, Buddy, ouse fazê-lo! Ouça o seu coração. (...) Ele nunca o trairá."

J D Salinger - "Pra cima com a viga, moçada! e Seymour-uma introdução" - Ed Brasiliense, 3ª Edição - tradução de Alberto Alexandre Martins
-> faz parte da coleção L & PM Pocket...

segunda-feira, 8 de março de 2010

Dia Internacional da Mulher

"A extorsão,
o insulto,
a ameaça,
o cascudo,
a bofetada,
a surra,
o açoite,
o quarto escuro,
a ducha gelada,
o jejum obrigatorio,
a comida obrigatoria,
a proibição de sair,
a proibição de se dizer o que se pensa,
a proibição de fazer o que se sente,
e a humilhação pública
são alguns dos métodos de penitência e tortura tradicionais na vida da familia. Para castigo à desobediência e exemplo de liberdade, a tradição familiar perpetua uma cultura do terror que humilha a mulher, ensina os filhos a mentir e contagia tudo com a peste do medo.
- Os direitos humanos deveriam começar em casa - comenta comigo, no Chile, Andrés Domínguez."

Eduardo Galeano, "Mulheres" - L&PM Pocket, 1991

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

"O primeiro verde da natureza é dourado,
Para ela, o tom mais dificil de fixar.
Sua primeira folha é uma flor,
Mas só durante uma hora.
Depois a folha se rende a folha.
Assim o Paraíso afundou na dor,
Assim a aurora se transforma em dia.
Nada que é dourado fica."

Robert Frost

- é assim que consta na pag.86 do livro "Outsiders", de Susan E. Hinton, Editora Brasiliense, 4ª Edição, 1993 -

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Já não dói

"É uma festa surpresa que damos a nós mesmas. As feridas amorosas que se curam, que já não doem, que se fecham, devem ser tomadas assim: com reverência. Acontece um dia, depois de andar penando quem sabe como e quanto. Tínhamos ficado machucadas, como frutas que alguém morde e depois decide não comer. Como flores arrancadas de seu talo, como pedras de um colar quebrado. E acontece de repente - talvez porque o tempo tenha passado, talvez porque sejamos sábias - que pensamos nele e que ou vemos, e é ... um homem, simplesmente um homem, um homem que já não nos comove. Nós o compreendemos com a mente, mas também com o coração e necessariamente com as unhas, as palmas das mãos, os joelhos e a pele do ventre: há cicatriz aí onde antes houve ferida. Capítulo fechado. Livro terminado. Lição aprendida. Flor em seu talo. Fruta intacta.
Não há rancor: há futuro."

- Sandra Russo, no livro "Perdoem nossos prazeres" - V & R Editoras, 2006

domingo, 14 de dezembro de 2008

De Amor e De Sombra


Outro livro que virou filme. Já li alguns da chilena Isabel Allende, e esse tem uma das minha passagens prediletas, quando Francisco leva Irene para casa:
"(...) ao contemplá-la junto ao muro de pedra de sua casa, com os braços carregados de flores silvestres para seus velhos e o cabelo revolto pela viagem na moto, intuiu que essa criatura não fora feita para as realidades sórdidas. Beijou-a na face o mais próximo possível da boca, desejando com paixão permanecer ao seu lado eternamente para protegê-la das sombras. Cheirava a ervas e tinha a pela fria. Soube que amá-la era seu destino inexorável."
Isabel Allende, "De Amor e de Sombra", Bertrand Brasil, 15ª Edição, 2005.

sábado, 6 de dezembro de 2008

As Virgens Suicidas

A editora L&PM reeditou, dentro da ótima "Pocket", o maravilhoso "As Virgens Suicidas", de Jeffrey Eugenides. Publicado originalmente pela Rocco em 1994 ou 1995, com o titulo "Virgens Suicidas", o livro estava fora de catálogo já faz um bom tempo. Agora reaparece e com R$ 13,00 você pode adquirir 206 páginas de pura "prosa poética".

"-Alguém tem bala de hortelã ou chiclete? - perguntou Bonnie. Ninguém tinha, e ela virou-se para Joe Hill Conley. Examinou-o por um instante, depois, com os dedos, mudou o repartido do cabelo dele para o lado esquerdo. - Assim fica melhor. - disse. Quase duas décadas depois, o pouco cabelo que lhe resta continua repartido pela mão invisível de Bonnie."

As Virgens Suicidas, Jeffrey Eugenides, L&PM Pocket, 2008

PS: leia o livro e veja o filme, dirigido por Sofia Coppola em 2000.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Da Palavra

"(...) As gurias gostavam que os guris também brincassem com elas. Só que... não podia ser "boca-suja". Desde cedo a gente aprendia que a palavra tinha sido um dom só concedido aos homens, e não aos bichos, e que um homem de verdade não podia achincalhar a si próprio, e aos outros, achincalhando a fala dele. Mentira, nome-feio, bagaceirada, agressão - jamais. Cordialidade, com alma forte e coração sereno - sempre."

Barbosa Lessa
"Porteira aberta"
no livro "Nós, os gaúchos", varios autores, Editora da Universidade (Federal do Rio Grande do Sul), 1993

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Longa viagem sem nos movermos

"Ritmo de pulmões da cidade que dorme. Fora, faz frio.
De repente, um barulho atravessa a janela fechada. Você aperta as unhas em meu braço. Não respiro. Escutamos um barulho de golpes e palavrões e o longo uivo de uma voz humana. Depois, o silêncio.
-Não peso muito?
Nó marinheiro.
Formosuras e dormidezas, mais poderosas que o medo.
Quando entra o sol, pestanejo e espreguiço com quatro braços. Ninguém sabe quem é o dono deste joelho, nem de quem é este cotovelo ou este pé, esta voz que murmura bom dia.
Então o animal de duas cabeças pensa ou diz ou queria:
-Para gente que acorda assim, não pode acontecer nada ruim."

Eduardo Galeano
em "Mulheres" - L&PM - Pocket, 1997

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Domingo, 30 de Janeiro de 1944


"(...) Fiquei no topo da escada enquanto aviões alemães voavam de um lado para o outro, e soube que estava sozinha, que não podia contar com a ajuda dos outros. Meu medo desapareceu. Olhei para o céu e confiei em Deus.
Tenho enorme necessidade de ficar sozinha. Papai percebeu que não estou como sempre, mas não posso dizer a ele o que me incomoda. Só quero gritar: "Me deixem sozinha, me deixem sozinha!"
Quem sabe, talvez chegue um dia em que me deixarão sozinha mais do que eu gostaria!"

Anne Frank
"O Diario de Anne Frank", Editora Record, Edição Integral Autorizada, 1991





sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Tempos Duros, por Brecht

Em época de eleições presidencias nos Estados Unidos da América, (o que equivale dizer que há eleição para Grande Imperador do Mundo), torcemos pela vitória do menos pior, do menos lunático, do menos egocêntrico... Porque o mundo pode piorar...

"1940"

"Meu filho pequeno pergunta: devo aprender matemática?
- Para quê? - gostaria de lhe responder. - Acabarás
de qualquer modo sabendo que dois pães
valem mais do que um só.
Meu filho pequeno pergunta: devo aprender francês?
- Para quê? - gostaria de responder. - Esta nação
está na iminência de desaparecer. Esfrega
a barriga com a mão, gemendo; te entenderão.
Meu filho pequeno pergunta: devo aprender história?
- Para quê? - gostaria de responder. - Aprende
a esconder a cabeça debaixo da terra
que assim talvez sejas poupado.

No entanto eu lhe digo: - Sim, aprende
matemática,
aprende francês,
aprende história."

Bertold Brecht

Está no maravilhoso "Só poema bom", seleção e traduções de Paulo Hecker Filho, Editora Alcance, 2000

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Galeano

Em setembro de 1997 comprei meu primeiro exemplar de uma obra de Eduardo Galeano. É uma antologia de textos, retirados de diversos de seus livros, e que versam sobre "Mulheres". Acho que é impossível para uma mulher resistir aos apelos de um livro com este nome... Enfim, o pequeno volume de 177 páginas abriu-me as portas do mundo deste fascinante escritor. Sintam-se acolhidos...

"A NOITE/1"

"Não consigo dormir. Tenho uma mulher atravessada entre minhas pálpebras. Se pudesse, diria a ela que fosse embora; mas tenho uma mulher atravessada em minha garganta."

Alguém consegue conceber um mais incrivel, maravilhoso, perfeito destino para uma mulher? Impedir o sono dos poetas...

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

"Do Desejo"

"O desejo é prova de nossa finitude, de nossa contingência, de nossa materialidade.
Se eternos, não desejaríamos nada. Aguardaríamos."

Luiz Antonio de Assis Brasil - Ensaios íntimo e imperfeitos - L&PM Editores, 2008.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

"Louca & Malvada"


"- Gostaria de seduzir um homem assim.
- O que faria com ele?
- Eu o faria sofrer?"
Simone de Beauvoir (se não me engano, no livro
"A Convidada")

"(...) Às vezes cansa ser louca demais
mas gosto do medo que sentem
de se aproximar de uma mulher assim
hoje quero alguém mais ou menos apaixonado por mim
."
Martha Medeiros

"A água finge
proteger a caverna
a qual corrói
lentamente."
Maria Eunice M. Kautzmann

terça-feira, 16 de setembro de 2008

O Início

"Sempre escrevi para saber o que penso."

Joan Didion, O Ano do Pensamento Mágico