Mostrando postagens com marcador Poetas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Poetas. Mostrar todas as postagens

sábado, 26 de novembro de 2011

Longe do meu lado

Se a paixão fosse realmente um bálsamo
O mundo não pareceria tão equivocado
Te dou carinho, respeito e um afago
Mas entenda, eu não estou apaixonado
A paixão já passou em minha vida
Foi até bom mas ao final deu tudo errado
E agora carrego em mim
Uma dor triste, um coração cicatrizado
E olha que tentei o meu caminho
Mas tudo agora é coisa do passado
Quero respeito e sempre ter alguém
Que me entenda e sempre fique a meu lado
Mas não, não quero estar apaixonado
A paixão quer sangue e corações arruinados
E saudade é só mágoa por ter sido feito tanto estrago
E essa escravidão e essa dor não quero mais
Quando acreditei que tudo era um fato consumado
Veio a foice e jogou-te longe
Longe do meu lado
Não estou mais pronto para lágrimas
Podemos ficar juntos e vivermos o futuro, não o passado
Veja o nosso mundo
Eu também sei que dizem
Que não existe amor errado
Mas entenda, não quero estar apaixonado

Renato Russo, no disco "A Tempestade"

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Poema em linha reta

"Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza."

Fernando Pessoa
está em "Poesias", L&PM Pocket, 1997

domingo, 9 de novembro de 2008

Distimia

Volta e meia me deparo com a tarefa inglória de tentar explicar aos amigos como os pensamentos sombrios podem ocupar a mente de uma pessoa, sem que consigamos lutar contra isso. Dificilmente sinto que fui compreendida. Por isso, foi consolador (embora também doloroso) encontrar este poema de Gonçalo M. Tavares, do qual reproduzo alguns versos:

"(...)
Às vezes tenho medo, muito medo.
Às vezes sofro.
Às vezes, penso nas pessoas que amo e penso na possibilidade
de as perder.
Às vezes vejo alguém doente e fico incomodado.
Pode não ser um amigo ou um familiar.
Posso estar a vê-lo pela primeira vez.
Mas fico incomodado.
Aquela doença pertence-me.
(...)
Às vezes sinto isso muito,
outras vezes sinto menos.
Quando sinto menos posso preocupar-me como mundo,
brincar com a poesia,
com a filosofia e com as palavras.
Mas quando sinto, deixo de conseguir pensar.
(...)
Que importa o resto?
Onde está o livro importante?
O filme que resolve?
(...)
Estamos sozinho.
Se não estamos, vamos estar.
Os amigos vão-nos deixando, vão-nos deixar.
Vão morrer ou nós vamos morrer.
(...)
Estamos sozinhos. As pessoas que amo vão morrer.
(...)"

Não tem título, exceto pelo número "50.". Está no livro "O Homem ou é Tonto ou é Mulher". Que aliás foi dica do jornalista, compositor, cantor e gente finíssima Beto Só.
http://blogdobetoso.blogspot.com/

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Tempos Duros, por Brecht

Em época de eleições presidencias nos Estados Unidos da América, (o que equivale dizer que há eleição para Grande Imperador do Mundo), torcemos pela vitória do menos pior, do menos lunático, do menos egocêntrico... Porque o mundo pode piorar...

"1940"

"Meu filho pequeno pergunta: devo aprender matemática?
- Para quê? - gostaria de lhe responder. - Acabarás
de qualquer modo sabendo que dois pães
valem mais do que um só.
Meu filho pequeno pergunta: devo aprender francês?
- Para quê? - gostaria de responder. - Esta nação
está na iminência de desaparecer. Esfrega
a barriga com a mão, gemendo; te entenderão.
Meu filho pequeno pergunta: devo aprender história?
- Para quê? - gostaria de responder. - Aprende
a esconder a cabeça debaixo da terra
que assim talvez sejas poupado.

No entanto eu lhe digo: - Sim, aprende
matemática,
aprende francês,
aprende história."

Bertold Brecht

Está no maravilhoso "Só poema bom", seleção e traduções de Paulo Hecker Filho, Editora Alcance, 2000

domingo, 12 de outubro de 2008

Solidão acompanhada

Alguns amores são mais dificeis de tocar que outros. Algumas pessoas ocultam as pistas, escondem as emoções, evitam os sentimentos, e mantêm o outro no eterno escuro, tateando, sem saber como agir, sem saber onde estão as linhas que devem ser cruzadas, e aquelas que não se deve tocar.

" Tua forma de querer
é deixar que eu te queira.
O sim com que a mim te rendes
é o silêncio. Teus beijos
são oferecer os lábios
para que eu os beije.
Nunca palavras, abraços,
me dirão que existias,
que me queres: nunca.
Só o dizem folhas brancas,
mapas, augúrios, telefones;
tu, não.
E estou abraçado a ti
sem perguntar-te, de medo
que não seja verdade
que vives e me queres.
Estou abraçado a ti
sem olhar e sem tocar-te.
Não acabe descobrindo
com perguntas, com carícias,
esta solidão imensa
de querer-te apenas eu."

Pedro Salinas
Está no livro "Só Poema Bom", seleção e traduções de Paulo Hecker Filho, editora Alcance, 2000

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Não demore

"não faz diferença
se você vem amanhã
ou não vem
desisti de esperar
por alguém
cuja ausência
me faz companhia"

Martha Medeiros, Poesia Reunida, L&PM, 1999

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Amigos & Amantes

Esta linha pode ser bastante tênue; afinal, onde deixamos de ser uma coisa e passamos a ser outra? Como ser as duas coisas ao mesmo tempo? Com certeza, contradigo agora a citação de JG de Araujo Jorge... E com certeza, voltarei muitas vezes ao assunto...

PRECISO DIZER QUE TE AMO

"Quando a gente conversa
Contando casos, besteiras
Tanta coisa em comum
Deixando escapar segredos
E eu não sei que hora dizer
Me da um medo, que medo

Eu preciso dizer que eu te amo
Te ganhar ou perder sem engano
Eu preciso dizer que eu te amo
Tanto

E até o tempo passa arrastado
Só pr'eu ficar do teu lado
Voce me chora dores de outro amor
Se abre e acaba comigo
e nessa novela eu não quero
ser seu amigo

É que eu preciso dizer que eu te amo
Te ganhar ou perder sem engano
Eu preciso dizer que te amo, tanto

Eu ja nem sei se eu tô misturando
Eu perco o sono
Lembrando cada gesto teu
Qualquer bandeira
Fechando e abrindo a geladeira
A noite inteira

Eu preciso dizer que eu te amo
Te ganhar ou perder sem engano
Eu preciso dizer que eu te amo, tanto".

Cazuza, Dé e Bebel Gilberto - conforme está no livro "Preciso dizer que te amo", Lucinha Araujo e Regina Echeverria, Editora Globo, 2001.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Cansada & Esperançosa


"Jururu não sei pedir. Fico enrodilhada. Faço pesca mas não pesco nada.
A. me fala do aeroporto, de passagem. Matter of fact que eu já conheço, sem desordem.
Sinto um grande cansaço pendurado no fio da minha voz.
Tremuras da desordem. Assuntos que não sei.
Mala diplomática apenas por um fio.
I can't give you anything but love, babe.
Praga. É uma praga. Você só gosta da partes difíceis.
Hoje te cabe a parte fácil: se sentir alguma coisa pode me chamar."

Ana Cristina Cesar - Inéditos e Dispersos - Editora Brasiliense - 2ª edição, 1991

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

"Louca & Malvada"


"- Gostaria de seduzir um homem assim.
- O que faria com ele?
- Eu o faria sofrer?"
Simone de Beauvoir (se não me engano, no livro
"A Convidada")

"(...) Às vezes cansa ser louca demais
mas gosto do medo que sentem
de se aproximar de uma mulher assim
hoje quero alguém mais ou menos apaixonado por mim
."
Martha Medeiros

"A água finge
proteger a caverna
a qual corrói
lentamente."
Maria Eunice M. Kautzmann

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

JURA SECRETA


Só uma coisa me entristece
o beijo de amor que não roubei
a jura secreta que não fiz
a briga de amor que não causei.

Nada do que posso me alucina
tanto quanto o que não fiz
nada que eu quero me suprime
de que por não saber ainda não quis.

Só uma palavra me devora
aquela que meu coraçao nao diz
só o que me cega, o que me faz infeliz
é o brilho do olhar que não sofri.


Em 1977, a música, na voz de Simone, era a trilha sonora da "Carola" da novela "O Profeta". Composição de Abel Silva e Sueli Costa. Fiquei um pouco surpresa ao descobrir que a letra era dele, e não dela; parecia tão feminina... Para isso é que existem os poetas!
Está no livro "Só uma palavra me devora", Abel Silva, Editora Record, 2000.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Fim de Romance

Este post é para meu amigo H., que sofre pelo fim do namoro. Pela segunda vez. Ficar próximo ou não? Dar espaço ou não? Decisão dificil de tomar...

"- Eu nasci para ser teu inimigo
ou teu amante
mas nunca um teu amigo
ou um teu irmão!"

- J G de Araujo Jorge -

domingo, 21 de setembro de 2008

Ana C.

Talvez meu poema predileto entre os que já li da poeta carioca Ana Cristina Cesar...

"imagino como seria te amar

teria o gosto estranho das palavras
que brincamos
e a seriedade de quando esquecemos
quais palavras

imagino como seria te amar:
desisto da idéia numa verbal volúpia
e recomeço a escrever
poemas."

no livro "Inédito e Dispersos", Editora Brasiliense, 2ª Edição,1991

Emily Dickinson

Em três versões:

"To make a prairie it takes a clover
and one be,-
One clover, and a bee,
And revery.
The revery alone will do
If bees are few."

"Para compôr um prado, precisa-se de um trevo
E uma única abelha,-
Um único trevo e uma abelha.
E devaneio.
O devaneio por si só já basta,
Se as abelhas forem raras."

"Para fazer uma pradaria precisa-se de uma flor
e uma abelha
Uma flor e uma abelha
e devaneio.
O devaneio, sozinho, basta
Se poucas forem as abelhas."


A versão original e a primeira tradução estão no livro "Poemas de Emily Dickinson", tradução de Ivo Bender, Mercado Aberto, 2002.
PS: esta postagem é irmã da postagem feita pelo meu amigo Mario Telmo no blog dele http://www.esquecimeudostoievski.blogspot.com/